#2 esperança
uma palavra tão grande cabe em apenas duas letras...
Ontem ouvi que estou desesperançosa, cansada de esperar que algo aconteça, com dor pelo que já aconteceu. Logo eu, desesperançosa. Logo eu, que insisto em ver a beleza da vida. Logo eu, que tanto falo sobre amor. Sim. Estou.
Sabe quando você morde a bochecha ao comer algo, sente uma dor que chega a sangrar, e percebe que precisa mastigar com calma? Então, faz isso por um tempo, controla seu estado de presença, até que, em algum momento, quando está quase curado, você esquece e morde de novo. No mesmo lugar. Só que dói mais, não estava 100% curado. Por vezes isso se repete, até que, em algum momento, para, e se cura.
Duvido que isso tenha acontecido uma única vez na vida com você. Por aqui, nunca nem pensei em contar, porque não fico pensando nisso. É como se naturalmente existisse a certeza de que pouco importa caso aconteça de novo: eu sei que dou conta da dor, e depois ela vai passar. Será tão certeiro que nem precisarei contar quantas vezes ela já apareceu. Talvez isso seja esperança. Não a crença de que as dores jamais virão, mas de que eu dou conta delas com um sorriso no rosto, apesar da dor de dentro. Esperança talvez seja acreditar que existirão mais momentos da vida com bochechas saudáveis do que machucadas, e que isso já vale. De alguma forma, já vale.

Esperança talvez seja confiar. Confiar que a vida está para além das mordidas, mas também no que há de inteiro. Eu estaria mentindo para você se dissesse que ando conseguindo confiar, seja na vida, seja em mim. Ultimamente, ando com medo de morder de novo, com medo de sangrar.
E se dessa vez eu não der conta? Se eu sangrar até morrer? E pior: se eu não morrer e ficar escorrendo pela vida? Deixando a vida escoar de mim, sem saber o que fazer com ela?
Percebi que estou presente em meus dias não por amar a vida como ela é, mas por temer mordê-la mais uma vez. Eu realmente não contei quantas vezes já me machuquei, mas vivo em alerta para não me machucar mais uma vez. Quando confiei na vida, doeu. Mas não é isso, afinal, viver? Sinto que minhas palavras vão perdendo sentido à medida que não compreendo o que sinto. Como se elas se embaralhassem assim como eu.

Como faço para voltar a confiar na esperança? Será que um dia já fui esperançosa? Já. Lembro de inúmeras vezes sentir esperança de que naquele dia meu pai não iria beber, que naquela semana minha irmã não pensaria em tirar sua vida, que naquele mês eu conseguiria terminar aquele relacionamento, que naquela hora eu conseguiria respirar sem o peso do concreto sob meu peito.
Meu pai continua bebendo, minha irmã ainda flerta com a morte, eu consegui terminar o relacionamento e hoje respiro mais leve. 50/50. A vida nem sempre é tão exata assim, mas aqui foi fiel para me mostrar como não é de todo ruim. Eu nunca vou conseguir controlar as coisas para não me machucar. Posso fugir ou encarar.
Venho fugindo: de me apaixonar, de acreditar na segurança das relações, de finalizar o que já não me cabe mantendo a ilusão da dúvida, de dar as caras e fazer com o que tenho, de comunicar meus sonhos (mesmo que absurdos), de descansar.
É necessária muita energia para se manter em constante alerta, e o contrário é deixar, soltar, ver no que dá: arriscar, mesmo que doa. Tenho um nome melhor para o contrário da esperança. Não diria desesperança, mas sim, desacreditar.
É a mesma coisa?
Acreditar que existe além do que se pode ver, e que esse além é bom.
Na verdade, agora, agorinha mesmo, percebo que essa palavra tão grande,
e s p e r a n ç a, na verdade cabe inteira em duas únicas letras: fé.
Para além:
Transbordar nesse texto me lembrou de uma música que vem tocando no meu repeat há alguns dias, se chama “Bem Mais” do Dani Black. Só que não é qualquer versão, mas sim, a música ao vivo com a Maria Gadú <3
Tem um trecho que me marca profundamente, vou tomar a liberdade de partilhar por aqui:
“E se manter a mente e coração aberto, vencendo os medos, fatalmente irá chegar
Você vai rir, todos os dentes serão risos tão ardentes
Tarde ou cedo não será suficiente, vai querer bem mais
Bem mais longe, bem mais longe, bem mais…”




Sinto tanto orgulho de você, de como você nomeia o que sente mesmo quando está tudo embaçado. Você não precisa ter todas as respostas agora o que você tem é coragem. E isso já é tanto.
Você faz tanta diferença no mundo, amiga. E não é só pelas palavras lindas que escreve é pelo jeito que olha pro outro, pela forma como abraça com o corpo e com a presença.
Confia: você não está sozinha. Mesmo quando o medo se agiganta, a gente vai junto, mesmo tropeçando. Você vai rir, sim. Com todos os dentes. E vai querer bem mais. Porque você merece bem mais.
Te amo.
Tô aqui. Sempre.